segunda-feira, 9 de julho de 2007

Capítulo 10: A volta


Era a segunda corrida de João naquele dia. A primeira foi para chegar à delegacia, a outra para fugir de lá. Ele voltava para sua casa agora. Havia corrido metade do trajeto e, sem fôlego, fazia o restante andando.

O rapaz estava muito confuso com o que lhe vinha acontecendo. Deveria ir para o trabalho, mas não estava com cabeça para isso. Queria chegar em casa o mais rápido possível para pensar um pouco. Depois ligo para meu patrão e digo que estava doente, ele vai entender.

Procurava não pensar em nada na rua, queria deixar isso para depois, entretanto era impossível. Impossível porque o ocorrido na noite anterior já havia chegado à boca do povo. De quando em quando passava por pessoas que tinham a morte da moça e o belo poema como assunto. As opiniões sobre o acontecido eram diversas, contudo uma única coisa se repetia no discurso de todos: “Posso até não saber o porquê e quem matou, mas, quem quer que seja que fez aquela poesia, fez a coisa direito!”.

Tudo o que João ouvia deixava-o mais e mais confuso. Gostava de escutar os elogios, afinal de contas, aquelas coisas saíram das mãos dele, entretanto arrepiava-se ao pensar que estava ganhando créditos à custa de uma morte. Era um querer e não querer.

Depois de muito andar, chegou ao seu destino. Pegou o molho de chaves no bolso e começou a procurar a correta para abrir a porta de vidro que divisava a calçada do hall de entrada do prédio.

Enquanto estava distraído na procura, uma pessoa aproximou-se silenciosamente e o assustou ao dizer:

– Ora, ora! Veja se não é o Poeta das Madrugadas! Achei que voltaria para casa mais rápido.

João deu um pulo, mas, ao reconhecer aquela voz sarcástica, sussurrou o seguinte, enquanto segurava no braço do mendigo:

– Quieto! Você quer que alguém escute?! E eu havia me esquecido de você... Vamos, diga logo, quanto de dinheiro quer para não dizer o que fiz ontem?

– Então – disse o Lovateri ignorando a última pergunta de João – como foi lá na delegacia? Contou para os tiras o que você fez? Deu muitos autógrafos?

– Escuta aqui, seu desgraçado, eu não falei nada para ninguém e pretendo não falar. Diz logo o quanto você quer e vá embora.

– Eu não quero nada, cacete! Será que não deu para você entender que eu não quero porra de dinheiro algum?

– Então o que veio fazer aqui?

– Vim te ajudar – disse o filósofo em um tom amável.

– Quê?!

– Bem, hoje, quando você saiu de casa, notei, pelo seu modo de agir, que você tem uma visão um tanto quanto católica sobre o que aconteceu ontem. Ou seja, você fez um desabafo artístico com aquela poesia, mas se arrependeu depois. Era perfeitamente visível que sua consciência iria sugerir algo politicamente correto como, por exemplo, se entregar. Mas o problema é que você anda como um frouxo, age como um frouxo, tem uma visão de frouxo e pensa como um frouxo, em outras palavras, você é um frouxo. Com base nisso, concluí que você entraria naquela delegacia e que com certeza não teria coragem de levar a história de se entregar a diante e acabaria voltando para casa.

– Olha aqui seu...

– Eu ainda não terminei de falar – interrompeu o filósofo – Eu ainda tinha uma dúvida quando ao assunto. Precisava saber se você havia feito aquela poesia por livre e espontânea vontade. Como eu não estava muito a fim de trabalhar hoje e sabia que você demoraria algum tempo para voltar para casa, decidi entrar no seu apartamento para olhar suas outras poesias.

– Você invadiu meu apartamento?!

– Como eu ia dizendo, decidi entrar no seu apartamento para olhar suas poesias; e, diga-se de passagem, não foi muito difícil, pois você deixou a porta aberta. Deveria tomar mais cuidado, rapaz. Essa cidade é perigosa e alguma pessoa má intencionada poderia ter roubado, por exemplo, o seu talão de cheque que estava sobre a mesa... Eu não nego que abri o talão para descobrir seu nome, uma vez que você não se apresentou até agora, senhor João Tântalo.

– Devolva minhas coisas agora – falou João, enquanto segurava o colarinho de Lovateri – ou senão eu...

– Calma, calma, rapaz! – defendeu-se o filósofo enquanto tentava se separar de João – Eu não roubei nada. Já disse que fui para lá a procura de outra coisa, que, por sinal me fez tirar interessantes conclusões.

– Que conclusões?! – resmungou João chacoalhando o mendigo

– Quer ouvi-las? – divertiu-se o outro, enquanto ainda lutava para escapar.

– Fala logo!

– Então me larga.

– Pronto! – disse João largando o homem – Agora fala. Que conclusões?

– Ah, assim está melhor... Você tem uma mão pesada. Me machucou, sabia? – resmungou enquanto passava a mão no pescoço – não acha que seria de bom tom pedir desculpas?

– Olha aqui seu... – disse João avançando novamente.

– Brincadeirinha, brincadeirinha – divertiu-se Lovateri, para em seguida mudar de expressão e tom de voz – Bom, vamos falar de coisas sérias. Pelas poesias que encontrei no seu apartamento, concluí que você é um poeta... digamos... razoável. Confesso que me decepcionei um pouco, mas, refletindo melhor sobre o assunto, percebi que o que aconteceu ontem foi uma canalização de sentimentos e sensações em um único poema. Em outras palavras, é como se você tivesse juntado todos os sentimentos que distribuiu em vários poemas e concentrasse tudo em um só, um único.

– Aonde você quer chegar com isso?

– Aonde quero chegar? Vou ser mais claro: ontem você fez uma coisa excepcional, inimitável, inigualável que nunca mais vai se repetir, pois você não vai conseguir realizar obra alguma para ombreá-la. E é por isso que estou aqui agora. Vim te dizer que você não é um criminoso e que aquela morte não se passou de uma loucura que nunca mais vai acontecer. Você pode tratar de esquecer o seu feito maravilhoso e seguir sua vida como poeta razoável que é isso o que você é.

Dito isso, o filósofo ficou parado olhando a expressão facial atônita que João fazia ao ouvir as últimas palavras.

– Bom, foi um prazer conhecê-lo, senhor João Tântalo. Agora que sei que o senhor é um poeta razoável e que nunca mais vai fazer aquilo novamente, não tenho mais o que te falar e preciso cuidar da minha vida. Até um dia qualquer.

João não respondeu, ainda estava tentando processar as informações recentes. O filósofo, que esperava uma revolta por parte dele, como um soco, por exemplo, cansou-se do silêncio e do fato de João nem se mexer. Deu de ombros, virou de costas e foi-se embora.